Como já falamos aqui no Tambotech sobre as alternativas de internet via satélite além da Starlink, o mercado de comunicação espacial ganhou um novo protagonista: a SpaceConnect Association, uma associação comercial lancada em 24 de junho de 2026 para representar os interesses das operadoras de satélites não geoestacionarios (NGSO).

A entidade reune Amazon, Iridium, Telesat e Globalstar como membros fundadores e tem sede em Washington, D.C. Mas o detalhe que mais chama atenção e quem não está na lista: a Starlink, da SpaceX, a maior operadora de satélites LEO do planeta, ficou de fora.
Este artigo explica o que e a SpaceConnect, quem são seus membros, por que a Starlink não participa, qual o contexto de disputa por espectro e órbita que levou a criação da associação, e o que isso significa para o Brasil.
O que e a SpaceConnect Association
A SpaceConnect Association e uma organização sem fins lucrativos criada para dar voz as operadoras de satélites não geoestacionarios (NGSO) em debates regulatorios, de espectro e de licenciamento. A associação e liderada por David Redl, ex-diretor da NTIA (a agência de telecomunicacoes dos EUA), e Julie Kearney, que foi a primeira chefe do Escritorio Espacial da FCC.
O grupo se diferencia da Satellite Industry Association (SIA), que existe há decadas, por focar exclusivamente em questoes de operadoras NGSO. Como explicou Redl, “operadoras NGSO e outras partes do ecossistema de satélites não tem necessariamente alinhamento completo nas coisas que protegeriam sua capacidade de competir”.
Quem são os membros fundadores
A associação reune quatro empresas com perfis e interesses distintos no espaço:
Amazon por meio do Amazon Leo (ex-Projeto Kuiper), já tem 367 satélites em órbita de uma constelação planejada de mais de 3.200. Prepara o lancamento comercial do serviço de banda larga ainda em 2026 para competir diretamente com a Starlink. Em junho, o FCC concedeu uma extensao de prazo para a Amazon implantar metade da constelação, mas com uma condicao dura: os satélites lançados apos julho de 2026 perdem prioridade de espectro por 20 meses, dando vantagem operacional a SpaceX.
Globalstar opera cerca de 48 satélites e fornece serviços de mensagens via satélite para iPhones da Apple. A Amazon está em processo de compra da empresa por US$ 11,6 bilhões, o que deve integrar ainda mais as operações.
Iridium e a rede de 66 satélites que oferece serviços globais de voz e dados, com foco em comunicação movel via satélite. A empresa tem um conflito aberto com a AST SpaceMobile sobre o uso do espectro da Ligado.
Telesat e o único membro fora dos EUA (canadense). planeja 198 satélites de banda larga na constelação Lightspeed, com lancamentos em serie a partir de 2027. Curiosamente, a SpaceX está contratada para lançar esses satélites.
Juntas, as quatro empresas operam cerca de 480 satélites. A Starlink, sozinha, tem mais de 10 mil.
Por que a Starlink ficou de fora
A ausência da SpaceX não e um acaso. Analistas do setor apontam divergencias estrategicas claras. A SpaceX tentou reduzir a prioridade da Amazon na coordenação de espectro em troca de uma extensao no cronograma do Kuiper, pedido rejeitado pelo FCC. Há também disputas entre a Iridium e a AST SpaceMobile sobre o uso do espectro da Ligado.
Para Tim Farrar, da consultoria TMF Associates, “há interesses divergentes entre a SpaceX e a AST e os membros desta nova organização”. Ele acrescenta que a SpaceX “e grande o suficiente para cuidar de si mesma”.
O presidente da SpaceConnect, David Redl, disse que a entidade “absolutamente receberia” a SpaceX. Mas, na prática, a Starlink tem pouco a ganhar em uma associação onde teria um voto entre vários enquanto contribui com a esmagadora maioria dos satélites, receita e peso politico do segmento.
A guerra de frequências no espaço
A criação da SpaceConnect acontece em um momento de saturacao do espectro de radiofrequências usado por satélites. Com mais de 14 mil satélites em órbita e pedidos de centenas de milhares de novos na UIT, o espaço deixou de ser um recurso abundante e se tornou um corredor industrial disputado.
O principal campo de batalha são os limites de densidade de fluxo de potencia equivalente (EPFD), que definem quanta energia os satélites LEO podem direcionar a Terra sem interferir nos satélites geoestacionarios (GEO). Em janeiro de 2026, o FCC concedeu a SpaceX uma waiver para operar o Starlink Gen2 acima desses limites. Em abril, o FCC substituiu o regime fixo de EPFD por um modelo baseado em desempenho, uma mudança que beneficia operadoras LEO mas ameaca as GEO.
A disputa não e apenas técnica. A Uniao Internacional de Telecomunicacoes (UIT) opera em um sistema de “primeiro a chegar, primeiro a ser servido” para registro de frequências. Quem protocolou primeiro tem prioridade. A SpaceX fez seus registros muito antes dos concorrentes, o que lhe da uma vantagem estrutural que a SpaceConnect quer contestar.
Para 2027 está marcada a conferência Mundial de Radiocomunicacoes (WRC-27), que vai definir as regras globais de espectro para a próxima decada. A SpaceConnect quer influenciar diretamente essa negociação.
O impacto no Brasil
A criação da SpaceConnect Association tem efeitos diretos para o Brasil. O pais e o segundo maior mercado da Starlink no mundo, com mais de 1 milhão de assinantes. Qualquer mudança nas regras globais de espectro afeta diretamente a qualidade e o custo do serviço por aqui.
Mas o impacto vai além. A Anatel vive um momento de definicao sobre o modelo de cessao de espectro para satélites. O presidente da agência, Carlos Baigorri, já sinalizou que o Brasil pode migrar do atual sistema de coordenação para um modelo com licitacoes e blocos, similar ao da telefonia movel. A posicao que a SpaceConnect vai defender em foruns internacionais pode influenciar diretamente as regras que o Brasil vai adotar.
há também a questao do Direct-to-Device (D2D). A Starlink já pediu autorização a Anatel para operar o Starlink Direct to Cell no Brasil, e a AST SpaceMobile já recebeu aprovacao para operar na banda S. A SpaceConnect, com a Amazon Leo e a Globalstar, também tem planos de oferecer serviços D2D no pais. A disputa por espectro na banda S, que opoe Starlink, AST, Omnispace e Sateliot, e um termometro do que está por vir.
Em cenarios de emergência, o D2D pode ser crucial. Nós Estados Unidos, a T-Mobile já oferece texto para 911 via satélite Starlink gratuitamente para qualquer celular compativel, mesmo de outras operadoras. No Brasil, a ausência de cobertura celular em áreas remotas da Amazonia, rodovias e regiões rurais faz do D2D uma ferramenta com potencial de salvar vidas. A regulacao que a SpaceConnect vai ajudar a moldar pode acelerar ou atrasar a chegada desses serviços ao pais.
O que esperar da SpaceConnect
A associação nasce como um contrapeso institucional a hegemonia da Starlink. Seus membros ainda são pequenos perto da constelação de Elon Musk, mas juntos formam uma coalizao com peso politico e regulatorio. A agenda inclui modernizacao de licenciamento, acesso eficiente ao espectro, a WRC-27 e a oposicao a Lei Espacial Europeia, que Redl classificou como protecionista.
Para o Brasil, que vive uma disputa acirrada pelo espectro da banda S e discute o futuro do seu modelo regulatorio, o que a SpaceConnect fizer em Washington e Genebra vai importar tanto quanto o que a Anatel decidir em Brasilia. O ceu pode ser o limite, mas as regras de quem pode voar estao sendo escritas agora.




