O Evernote, um dos apps de notas mais antigos ainda em atividade, ganhou uma alternativa open source que dispensa servidor próprio. O EdgeEver reúne 2.024 estrelas no GitHub, entrega o layout de três painéis que ficou conhecido justamente pelo Evernote (árvore de cadernos, lista de notas e editor) e pode rodar dentro da cota gratuita da infraestrutura da Cloudflare. O diferencial é a integração nativa com agentes de IA por meio do MCP (Model Context Protocol), o que permite que assistentes leiam e organizem as notas. O projeto é distribuído sob a licença AGPL-3.0.

A recomendação do Tambotech é o modo Docker. Ele mantém o banco de notas em SQLite e os anexos em disco, dentro de um volume controlado por quem instala, e não cria dependência de serviços de terceiros: o único custo é o do próprio servidor. O modo serverless da Cloudflare é o caminho que o projeto oferece para quem não quer manter máquina alguma, mas ele exige conta Cloudflare com a assinatura do R2 ativada, e é aí que a diferença entre o que é gratuito e o que é pago precisa ficar clara.
O que é o EdgeEver
O EdgeEver é uma aplicação de notas para uso pessoal e equipe pequena, publicada no GitHub pelo desenvolvedor tianma-if em 26 de junho de 2026, com 2.024 estrelas e 1.052 forks contabilizados em 5 de outubro de 2026. Mantém o modelo de cadernos com aninhamento sem limite de profundidade, oferece editor com alternância entre rich text e código Markdown e traz histórico de revisão das notas.
A usabilidade é igual à do Evernote, inclusive na organização por Pilhas de Caderno. Para quem usa o Evernote há muitos anos, essa estrutura costuma ser o que trava a troca de app: as pilhas agrupam cadernos por projeto ou área, e quem já organizou uma biblioteca inteira assim não quer recomeçar do zero. O EdgeEver reproduz o modelo, com a pilha funcionando como um caderno que contém outros cadernos. No banco de dados, isso é um campo parent_id na tabela de cadernos, que permite aninhamento sem limite de profundidade. As tags continuam existindo, mas planas: são rótulos aplicáveis a qualquer nota, sem hierarquia, e o próprio app pode sugerir tags com IA.

A comparação com os concorrentes é direta. O Joplin exige que o usuário escolha e mantenha um servidor de sincronização ou um destino próprio, enquanto o Obsidian trabalha com um cofre de arquivos local e cobra pelo sync oficial. O EdgeEver escolheu um modelo que lembra o caderno tradicional, com três painéis, e resolve a hospedagem de duas formas: cota gratuita da Cloudflare ou contêiner Docker em VPS, NAS ou servidor doméstico.
O código é aberto, mas a licença AGPL-3.0 impõe uma condição relevante: quem oferecer o EdgeEver modificado como serviço a terceiros precisa publicar o código correspondente. Vale registrar que estrelas no GitHub medem interesse, não qualidade ou segurança do software.
Tecnologia e MCP nativo
A base técnica combina React, Hono e SQLite, mas a infraestrutura não é a mesma nas duas opções. No modo serverless, o aplicativo roda em Cloudflare Workers, com o banco em Cloudflare D1 e as mídias e os anexos no Cloudflare R2. No modo Docker, roda no runtime Bun, com SQLite em arquivo em /data/edgeever.sqlite e anexos em disco local ou em armazenamento S3-compatível. O que se compartilha é o backend Hono, com as mesmas rotas, migrações e implementação de MCP, e não a infraestrutura. O repositório é majoritariamente TypeScript, com clientes nativos em Rust, Swift e Expo.
O ponto que mais distancia o EdgeEver de outros apps de notas é o suporte nativo ao MCP, o protocolo que conecta assistentes de IA a fontes de dados. O servidor MCP expõe ferramentas para buscar notas em texto completo, ler o conteúdo de uma nota, criar notas em um caderno específico, listar a hierarquia de cadernos e importar notas em lote. Com um token de API com permissões definidas, assistentes como Claude Code, Codex e Antigravity conseguem trabalhar sobre a base de notas.
Além do MCP remoto, o aplicativo de desktop fala ACP, o Agent Client Protocol, com agentes que rodam na própria máquina, como Codex, Claude Code e Cursor. A diferença está no escopo: o MCP remoto serve para um assistente acessar a base de notas pela rede, enquanto o ACP conecta o EdgeEver a um agente local, que trabalha com o contexto da nota aberta.
O projeto também aceita chaves de modelos de terceiros. O usuário conecta provedores compatíveis com OpenAI, Anthropic ou Gemini e ganha ações de resumo, extração de pontos-chave, revisão e tradução sobre uma nota inteira ou sobre um trecho selecionado. As credenciais ficam cifradas no servidor, e as requisições partem da instância, não do navegador.
Importar os dados do Evernote
O caminho de saída do Evernote sempre foi o ponto fraco de quem tentou trocar de app. O formato de exportação da empresa, o ENEX, é um XML da década passada que embute anexos em base64 e não possui campos para o nome do caderno, para a pilha de cadernos, para o identificador da nota ou para o estado na lixeira. Ou seja: parte da organização que o usuário construiu dentro do Evernote simplesmente não existe no arquivo exportado, e nenhum importador consegue recriá-la. As ferramentas que leem ENEX também tropeçam em XML malformado gerado pelo próprio Evernote, em listas de tarefas que perdem prazo e metadados e em links internos entre notas que chegam quebrados.
O EdgeEver ataca esse problema no ponto onde ele começa. Em vez de pedir que o usuário faça a exportação manual pelo aplicativo de desktop, caderno por caderno, a documentação oficial recomenda um fluxo automatizado: a instalação da ferramenta evernote-backup, que baixa todas as notas para um banco SQLite local usando a API da Evernote, a exportação em arquivos ENEX e a importação via MCP pelo script import-evernote-enex-via-mcp.mjs, mantido no próprio repositório. O script converte as notas em Markdown, preserva as datas de criação e edição, reconstrói a hierarquia de cadernos aninhados e converte as imagens para WebP. Depois da importação, a documentação pede uma verificação simples: abrir notas com várias imagens e conferir se a estrutura de cadernos voltou completa.
Vale o alerta: a migração completa exige as credenciais da conta Evernote, então vale rodá-la em um ambiente confiável. E o software Evernote continua fechado, o que mantém o ENEX como o único caminho oficial de saída. Quem migra ainda depende de um formato que a própria Evernote classifica como parte de uma API legada e descontinuada.
Recursos já existentes
O recurso mais relevante para quem trabalha com conteúdo é a cópia formatada: a nota vira texto rico com CSS embutido, pronto para ser colado em editores como WordPress, Substack, Medium ou o editor da sua newsletter, sem ferramentas extras. Entre os demais recursos:
- Editor com visualização dupla, alternando entre rich text e código Markdown
- Diagramas Mermaid, fluxogramas, mapas mentais e fórmulas matemáticas renderizados dentro da nota
- Anexos de até 1 GiB, com envio fragmentado e streaming, e pré-visualização de PDF, documentos do Office, ZIP, áudio e vídeo
- Compactação de imagens no navegador, com conversão para WebP, lado maior limitado a 2.560 px e arquivo original mantido quando a compressão não reduz o tamanho
- Exportação de nota individual em Markdown, HTML ou PDF, além do backup completo da biblioteca em ZIP, com Markdown, Front Matter, pastas aninhadas, anexos e histórico de versões
- No modo Docker, os anexos ficam em disco local por padrão; o armazenamento S3-compatível, como MinIO, AWS S3 ou R2, é opcional
- Multiusuário em uma única instância, com espaços isolados por conta e gestão pelo administrador
- Apps para Android, iOS, macOS, Windows (Preview) e Linux (AppImage, Preview), extensão de recorte para Chrome, Edge e Firefox, PWA e rascunhos offline
- Recorte de publicações e citações do X (Twitter) pela extensão de navegador, com autor, data, texto e imagens salvos em uma nota
Segurança e hospedagem
A segurança do EdgeEver depende de quem instala. Como o app é auto-hospedado, não existe um provedor cuidando de atualização, backup e controle de acesso no lugar do usuário: a instância exige senha de administrador forte, HTTPS por proxy reverso quando exposta fora da rede local e atenção aos tokens de MCP, que dão acesso de leitura e escrita às notas. Uma Cloudflare bem configurada ou um VPS estável importam justamente por isso. Se a instância cair ou for mal configurada, quem perde acesso às notas é o dono delas.
O EdgeEver oferece alguns controles próprios: sessão com validade configurável, proteção contra tentativa de login por força bruta aplicada na camada da aplicação, tokens MCP com escopo granular e credenciais de armazenamento externo cifradas com AES-GCM. Nada disso substitui a escolha de uma hospedagem confiável e a rotina de backup.
Verificamos esse ponto no código antes de recomendar a instalação. No modo Docker, os anexos e as imagens não ficam expostos: o servidor publicado entrega apenas a aplicação e o build do frontend, não existe caminho de URL que aponte para a pasta de dados, e a única rota que devolve o arquivo de um anexo exige sessão autenticada ou token de API com escopo de leitura. A resposta ainda sai marcada como cache privado. A exceção é o compartilhamento público: um anexo passa a ser acessível por link quando o próprio dono cria o compartilhamento, com token aleatório e, se ele quiser, senha própria. Em outras palavras, ninguém precisa saber configurar permissão de arquivo para impedir acesso externo, porque o padrão já é fechado.
Isso não dispensa as medidas de quem opera a instância. A documentação oficial recomenda senha de administrador de pelo menos 32 caracteres, HTTPS por proxy reverso quando o serviço sai da rede local, atualização do container, bucket privado quando os anexos vão para armazenamento S3-compatível e rotina de backup do volume. São cuidados de rotina, e não detalhes que caibam em um artigo, mas a lista é curta e mantém o risco sob controle.
O que está por vir
O ritmo de desenvolvimento é intenso: o projeto publicou as versões 1.99.2 e 1.100.0 em outubro de 2026. Entre os planos anunciados estão o cliente Windows, hoje distribuído como Preview sem assinatura Authenticode (o que faz o SmartScreen alertar sobre o instalador), e a adoção do PostgreSQL como segundo banco relacional, ainda não implementado, pensado para equipes maiores e mais concorrência de escrita.
Principais dúvidas sobre o projeto
Preciso pagar algo para usar?
Depende do modo escolhido. No modo Docker, o software é gratuito e o único custo é o servidor que você já tem ou vai manter: VPS, NAS ou máquina doméstica. No modo serverless da Cloudflare, o uso pessoal costuma caber na faixa gratuita do R2, de 10 GB de armazenamento e sem cobrança de tráfego de saída, estimada pelo projeto em cerca de 150 mil notas e 50 mil imagens, mas o R2 exige ativar uma assinatura com forma de pagamento cadastrada mesmo dentro da faixa gratuita. Vale separar os produtos: o EdgeEver usa exclusivamente o R2 para mídias e anexos e faz a compactação das imagens no próprio navegador. O Cloudflare Images, serviço de armazenamento e otimização de imagens da Cloudflare, é pago, não integra essa pilha gratuita e não é usado pelo aplicativo.
Dá para rodar no meu próprio servidor?
Sim. A imagem oficial fica no GHCR, com suporte a amd64 e arm64, roda com Docker Compose em VPS, NAS ou servidor doméstico e mantém tudo que precisa sobreviver em um único volume em /data.
As minhas notas ficam presas no app?
Não. O armazenamento é SQLite padrão, com API REST, MCP e CLI, além de exportação em ZIP com Markdown, anexos e histórico de versões.
O que se perde na importação do Evernote?
O arquivo ENEX cru não carrega nome de caderno, pilha de cadernos, identificador da nota nem o estado na lixeira, e é isso que quebra a organização de quem exporta caderno por caderno pelo aplicativo de desktop. Na rota automatizada que a documentação recomenda, essa informação não vem do ENEX: a ferramenta evernote-backup lê os dados da conta pela API da Evernote e o script de importação reconstrói a hierarquia de cadernos aninhados a partir desse material. O que se perde de fato são os links internos entre notas, a hierarquia de tags e os textos cifrados, que chegam sem chave. Do resto, o EdgeEver preserva o que o formato carrega: conteúdo, anexos, datas de criação e edição e a estrutura de cadernos.
Quem mantém o projeto?
O repositório é mantido por tianma-if e pela comunidade, sem vínculo com a Evernote Corporation. A licença é AGPL-3.0.
Para quem passou anos convivendo com limites de dispositivo, propaganda no aplicativo e exportação complicada, o EdgeEver muda a equação: as notas ficam em um banco SQLite que o usuário controla, o caminho de saída do Evernote está documentado passo a passo e os agentes de IA passam a ler a base de notas em vez de ficar presos em uma caixa fechada.




