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Bilibili chega ao Brasil para competir com o YouTube no mundo

O Bilibili, plataforma chinesa conhecida como o YouTube do Oriente, intensificou a aproximação com o mercado brasileiro. Nesta semana, a companhia de Xangai relançou o aplicativo internacional e revelou o plano de montar um site em inglês, abrindo também vagas de gestão de comunidade em cidades como São Paulo. O primeiro movimento concreto para disputar audiência fora da China coloca o Brasil logo na lista de prioridades.

Robô cartoon assistindo a vídeos de rede social em sala de aula
Imagem gerada usando o Magnific

A informação é do Semafor, que teve acesso a anúncios de emprego e a materiais distribuídos a criadores. O app internacional voltou a funcionar sem exigir verificação de identidade, algo que antes obrigava usuários do exterior a enviar cópia de documento. A empresa também prepara um sistema global de moderação de conteúdo apoiado em inteligência artificial.

O YouTube chinês abre as portas para o mundo

O Bilibili é um dos maiores fenômenos de vídeo da China. Em janeiro, a plataforma afirmou ter mais de 376 milhões de usuários ativos por mês, número próximo do que o Google divulga para o YouTube em escala global. O diferencial está na comunidade: conteúdo longo, transmissões ao vivo e o sistema de comentários sobrepostos (danmu), que faz o público acompanhar cada vídeo como se estivesse na mesma sala. Foi essa mistura que transformou a antiga rede de anime em uma das maiores empresas de entretenimento digital do país.

Fora da China, a presença era tímida. A versão global (bilibili.tv) e o app internacional já aceitavam português e funcionavam no Brasil, mas o catálogo era menor e o acesso, limitado. Agora a empresa sinaliza uma ofensiva maior: além do site em inglês, cortou a exigência de documento para novos usuários no exterior e começou a recrutar em seis praças, entre elas a capital paulista.

Por que o Brasil entrou no plano

O interesse pelo brasileiro não surpreende para quem acompanha a estratégia das redes chinesas por aqui. O Kwai, da Kuaishou, investiu R$ 7 bilhões no país desde 2019 e supera 60 milhões de usuários, com o TikTok consolidado como o aplicativo de vídeos mais usado. O Brasil se tornou um dos mercados externos mais rentáveis do TikTok Shop, o comércio ligado à rede de vídeos curtos, segundo a Reuters.

Para o Bilibili, o país combina audiência jovem, forte consumo de anime e games e familiaridade com formatos de vídeo vindos da China. A vaga de gestão de comunidade em São Paulo indica que a empresa pretende montar equipe local, e não apenas traduzir a interface. O mesmo caminho foi percorrido por apps como o Kwai, que abriu escritório no Brasil para adaptar conteúdo e monetização ao público, relatou a Exame.

Há ainda uma aposta em conteúdo de marca: nos bastidores, o Bilibili se apresenta a criadores como espaço para ganhar dinheiro e alcançar um público jovem e conectado. Um mercado de patrocínios entre anunciantes e influenciadores está em desenvolvimento, disse a empresa em material recente. Com a forte cena de criadores de games e tecnologia, o Brasil é candidato natural a esse modelo.

Entre o alcance e a vigilância

A expansão, porém, tropeça na mesma sombra que acompanhou o TikTok. Pesquisas documentam censura em plataformas chinesas, incluindo o Bilibili. O Citizen Lab, da Universidade de Toronto, mapeou milhares de regras de filtragem em serviços como o Bilibili e o Douyin, o equivalente interno do TikTok. O Semafor também observa que a chegada em massa levanta perguntas sobre moderação e segurança de dados, a disputa que travou a rede de vídeos curtos nos Estados Unidos.

A companhia não respondeu aos pedidos de comentário. Nos bastidores, tenta atrair criadores célebres, como o americano MrBeast, para publicar em sua plataforma global. A estratégia comercial existe e é ambiciosa, mas quem aderir ao app no Brasil vai encontrar uma rede cujas regras de moderação seguem o controle do governo chinês. O desafio de expandir sem repetir a briga regulatória é o mesmo que já cerca o ecossistema da TikTok no país, do app de vídeos à loja de agentes de IA.

O Bilibili chega com uma fórmula que já venceu na China e quer repetir por aqui. Se vai repetir o sucesso do YouTube ou enfrentar o mesmo atrito do TikTok, depende de um ponto que a empresa ainda não explicou: como conciliar crescimento global com vigilância local.

Fonte: Semafor | Citizen Lab | South China Morning Post