Muito se tem falado sobre o novo modelo da Anthropic, o Mythos, e sua suposta capacidade de invadir empresas. Semana passada, como noticiamos aqui no Mythos, e sua suposta capacidade de invadir empresas. Semana passada, como noticiamos aqui no Tambotech, o Congresso americano ficou impressionado ao ver o modelo ao vivo invadir um banco americano em tempo real. A mídia inteira repercutiu. A empresa restringiu o acesso a americanos, selecionou parceiros a dedo, criou um programa exclusivo. Mas, na minha opinião como analista de segurança de TI com 20 anos de mercado, eu não pude deixar de notar uma coisa: há muito marketing nessa história. Eu diria que pelo menos metade de tudo isso é marketing.

O que me impressiona não é o Mythos, mas como as pessoas não se ligaram num detalhe simples: os bancos americanos não são conhecidos como os mais seguros do mundo. Segundo o World Economic Forum, bancos nos EUA, Europa e Japão estão correndo para corrigir vulnerabilidades expostas pelo Mythos. Um estudo da VCorp aponta que 68% das violações em serviços financeiros vêm de sistemas legados explorados. O relatório global Cybersecurity Outlook 2026 do próprio Fórum Econômico Mundial lista sistemas legados como a segunda maior barreira para a resiliência cibernética em grandes empresas. Não é de hoje que se critica a infraestrutura tecnológica dos bancos americanos.
Um exemplo concreto: a maioria dos bancos americanos já oferece autenticação de dois fatores, mas isso é apenas uma camada de segurança num processo muito mais complexo. O site Retail Banker International publicou em outubro de 2025 que os bancos americanos “ainda estão desnecessariamente sobrecarregados por uma segurança porosa” e que “lacunas permanecem em canais como o mobile devido a tecnologia ultrapassada”. Enquanto isso, no Brasil, não existe um banco que não tenha autenticação de dois fatores — seja por aplicativo próprio, token ou autenticador externo. O contraste é gritante: o 2FA é regra universal no Brasil, mas mesmo nos EUA, onde a maioria já oferece, isso não é suficiente diante de sistemas legados e infraestrutura ultrapassada.
Enquanto isso, sempre se disse no mercado que os bancos brasileiros são os mais seguros do mundo. O Nubank, por exemplo, já soma mais de 112 milhões de clientes e lidera em confiabilidade digital, segundo a Forbes. O Banco Central do Brasil publicou novas regras em junho de 2026 exigindo que as instituições melhorem a qualidade dos dados, justamente para se antecipar a riscos como os que o Mythos expôs. O BC também criou o BC Protege+, ferramenta que permite ao cidadão bloquear preventivamente a abertura de contas bancárias fraudulentas em seu nome — algo que não tem equivalente nos Estados Unidos.
Os bancos americanos, até nas operações mais básicas, são frágeis. No Brasil, eu transfiro dinheiro e preciso de múltiplas camadas de autenticação. O Pix, por exemplo, exige registro de dispositivo e dois fatores de autenticação por determinação do Banco Central. Nos Estados Unidos, você entra numa conta e retira o que precisa. A autenticação é muito mais simplificada do que a segurança que os brasileiros exigem.
E não sou só eu que penso assim. O professor Cal Newport, da Universidade Georgetown, publicou um vídeo intitulado “Is Claude Mythos Terrifying? (According to Experts: No.)” que já passou de 90 mil visualizações. A conclusão dele é a mesma: o Mythos é impressionante, mas o discurso apocalíptico em volta dele é desproporcional. O IBM Technology Podcast dedicou um episódio inteiro à pergunta “Claude Mythos: marketing hype or the end of cybersecurity?” e a resposta dos especialistas foi que o hype supera a realidade. O site Fierce Network publicou um artigo direto: “Is Anthropic’s Mythos a cybersecurity breakthrough, or just criti-hype?” criticando o que chamou de “criti-hype”, a tendência de transformar qualquer anúncio de segurança em crise existencial. E o lendário Bruce Schneier, referência global em criptografia e segurança, escreveu no seu blog que “não podemos dizer se temos um blockbuster até que eles nos deixem ver o filme inteiro”, apontando que não está claro o quanto esses novos modelos realmente avançaram. Até a Forbes tratou o assunto pelo ângulo dos negócios: o colunista Bob Zukis escreveu que o Mythos é mais um presente para a governança corporativa de segurança do que uma revolução tecnológica. E não é coincidência que a Anthropic tenha protocolado seu pedido confidencial de IPO na SEC um dia antes de expandir o Project Glasswing, como apontou o Investing.com.
O Mythos revelou o que já se sabia
Na minha visão, o modelo da Anthropic pode até ser impressionante do ponto de vista técnico, mas o que ele fez foi revelar, de forma mais elegante, algo que muita gente já sabia: os sistemas bancários americanos têm falhas conhecidas e criticadas há anos. Não é novidade para analistas de segurança. É o mesmo caso dos jovens que dizem ter inventado algo que já foi inventado há muito tempo.
O discurso em volta do Mythos parece mais construído para impressionar o público geral e os investidores do que para apresentar uma descoberta real para o mercado de segurança. Bancos brasileiros, com sistemas como o Pix e camadas múltiplas de autenticação, provavelmente dariam muito mais trabalho para um modelo como o Mythos. E isso não é sorte: é investimento em segurança de verdade, algo que os americanos ainda estão correndo atrás. É o mesmo paradoxo da IA que já discutimos aqui: investir em tecnologia sem entender o contexto não gera o retorno esperado.
Para qualquer analista que acompanha o mercado internacional, a fragilidade dos sistemas bancários americanos não é segredo. O caso do Mythos escancarou uma porta que já estava entreaberta. A diferença é que, no Brasil, o ecossistema financeiro aprendeu na marra a se proteger e hoje colhe os frutos disso. Enquanto isso, o hype em torno do Mythos parece ignorar que invadir um banco americano não é o feito que pintam.
No fim das contas, acho que o mercado de tecnologia deveria olhar para esse caso com mais ceticismo. O Mythos é um avanço? Sim, provavelmente. Mas boa parte do que se fala sobre ele é marketing bem construído. E para quem vive de segurança no Brasil, isso não é novidade nenhuma.
Fonte: Punchbowl News | Fierce Network | Schneier on Security | Forbes | World Economic Forum | WEF Outlook 2026 | VCorp | Forbes Brasil | Retail Banker International | GASA / BC Protege+




