A Microsoft anunciou nesta segunda-feira (6) o corte de 4.800 funcionários, o equivalente a 2,1% dá sua força de trabalho global. As demissões atingem principalmente a divisão de vendas comerciais e o Xbox, que passa pela maior reestruturação dá sua história. A notícia chega um ano depois de outra rodada massiva de cortes na empresa, que já havia demitido 9.000 pessoas em 2025.

O que já aconteceu: 4.800 demissões imediatas
Das 4.800 vagas eliminadas nesta segunda, 1.600 são do Xbox. Os outros 3.200 cortes atingem principalmente a área de vendas comerciais dá Microsoft, segundo memorando interno de Amy Coleman, chief people officer dá empresa. Coleman afirmou que a decisão reflete a necessidade de “ajustar recursos e funções” diante de um setor de tecnologia que se transforma rapidamente.
A Microsoft já vinha se preparando para esse movimento. Em abril, a empresa ofereceu um programa de aposentadoria voluntária pela primeira vez na sua história, direcionado a funcionários dos EUA a partir do cargo de sênior director. Mais de um terço dos elegíveis aceitaram a oferta. A ação dá Microsoft acumula queda de 19% no primeiro semestre de 2026, a pior entre as grandes empresas de tecnologia, em meio a dúvidas dos investidores sobre o retorno dos investimentos bilionários em inteligência artificial.
As demissões fazem parte de um cenário mais amplo: só no primeiro semestre de 2026, cerca de 154 mil pessoas perderam empregos em empresas de tecnologia, com Meta, Oracle, Amazon e Cognizant também reduzindo seus quadros.
Xbox: o negócio que não está saudável
O Xbox é o centro das atenções nesta reestruturação. A CEO dá divisão, Asha Sharma, foi direta em um e-mail aos funcionários: “nosso negócio hoje não está saudável”. Segundo ela, o Xbox opera com margens de lucro de 3 a 10 vezes menores do que plataformas e editoras comparáveis. Em um ano típico, a divisão perde 64 centavos para cada dólar investido.
Sharma assumiu o comando do Xbox há pouco tempo e já sinalizava que um “reset” era necessário. Em junho, ela publicou um memorando contundente dizendo que, excluindo Activision Blizzard King, a empresa gastou mais de US$ 20 bilhões em investimentos em conteúdo, plataforma e subsídio de hardware nos últimos cinco anos, mas a receita anual caiu quase meio bilhão de dólares no mesmo período.
A estratégia dá divisão se apoiava em três pilares: o Game Pass, a expansão multiplataforma e um portfólio amplo de estúdios. Nenhum deles cresceu no ritmo esperado. Sharma também citou a “crise de hardware mais grave dá história” como agravante, com custos de produção elevados e vendas de consoles abaixo do esperado. Para tentar reverter o quadro, o Xbox está reduzindo suas 14 camadas de gestão para no máximo cinco, idealmente três, e promoveu Helen Chiang, executiva de longa data, ao cargo de COO com autoridade sobre conteúdo, hardware, plataforma e serviços.
Estúdios vendidos e o futuro dos games no Xbox
Além dos cortes de pessoal, o Xbox está se desfazendo de cinco estúdios. A Double Fine (Psychonauts) e a Compulsion Games (South of Midnight) voltarão a ser estúdios independentes, mantendo suas propriedades intelectuais e catálogos. A Ninja Theory, criadora de Hellblade, e a Undead Labs, responsável por State of Decay, foram vendidas para novos proprietários, com funding garantido para concluir Senua e State of Decay 3. Já a Arkane Lyon, estúdio responsável pelo aguardado Marvel’s Blade, está em processo de consulta legal na França para definir seu futuro — o projeto Blade está atrasado e acima do orçamento.
Sharma garantiu que nenhum jogo first-party já anunciado será cancelado como parte dá reestruturação. Mojang (Minecraft) e King (Candy Crush) agora reportam diretamente a ela, sinalizando que o foco do Xbox vai se concentrar nas franquias de maior escala e retorno, em vez de apostas criativas espalhadas por dezenas de estúdios.
A inteligência artificial tem culpa?
A resposta oficial dá Microsoft é não. Amy Coleman afirmou categoricamente que “os cargos eliminados não estão sendo substituídos por IA”. Mas a própria executiva reconheceu que “a IA está mudando como o trabalho é feito” e que tarefas antes manuais agora podem ser automatizadas. Para quem perdeu o emprego, a distinção soa teórica.
O contexto ajuda a entender a pressão sobre a Microsoft. As grandes empresas de tecnologia devem gastar mais de US$ 700 bilhões em infraestrutura de IA este ano. A Microsoft lançou recentemente a unidade Frontier Company, focada em deploy enterprise de IA, com investimento de US$ 2,5 bilhões. Ao mesmo tempo, a alta nos preços de chips de memória, impulsionada pela demanda dos data centers, forçou a Microsoft a aumentar o preço dos consoles Xbox em um momento em que as vendas já estavam fracas.
Há ainda um movimento paralelo: empresas como Google DeepMind, World Labs, Luma AI e Runway estão recebendo centenas de milhões em funding para desenvolver “world models” — modelos de IA que simulam mundos interativos. Todas elas veem os games como o mercado de curto prazo mais promissor para essa tecnologia. O encolhimento do Xbox acontece justamente quando a indústria de jogos começa a ser redesenhada pela inteligência artificial generativa.
Ao todo, a Microsoft planeja eliminar 3.200 posições no Xbox até o fim do ano fiscal de 2027, com 1.600 cortes adicionais nos próximos meses. Sharma disse que a empresa continuará investindo no Xbox “tanto quanto sempre investiu”, mas com “maior foco, maior disciplina e maior clareza”. Resta saber se o mercado de consoles, que enfrenta a pior crise de hardware dá história, ainda terá espaço para um Xbox redesenhado.
Fontes: TechCrunch — Rebecca Bellan, The Verge — Tom Warren, BBC — Liv McMahon, Exame, CNBC — Jordan Novet




