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Dívida ‘invisível’ de Big Techs com infraestrutura de IA supera US$ 1,65 trilhão e acende alerta entre analistas, diz Nikkei

Um estudo do Nikkei Asia, publicado em 20 de julho de 2026, estima que cinco das maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos acumulam cerca de US$ 1,65 trilhão em obrigações financeiras que não aparecem em seus balanços patrimoniais. O montante supera a dívida oficial declarada por essas companhias, de aproximadamente US$ 1,35 trilhão. O cenário reacende o debate sobre a chamada bolha da IA, tema que o Tambotech já abordou em detalhes ao explicar como a inflação dos tokens e os gastos excessivos do setor podem gerar distorções no mercado.

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Imagem gerada por IA com modelo automático

O que diz o estudo do Nikkei Asia

De acordo com a apuração do Nikkei Asia, assinada pelo jornalista Kohei Yamada, a dívida fora dos balanços (chamada de “dívida oculta” ou “off-balance-sheet”) das empresas Alphabet (controladora do Google), Microsoft, Amazon, Meta e Oracle cresceu oito vezes em cerca de quatro anos. Em 2022, o valor estava na casa das centenas de bilhões de dólares.

O estudo indica que essas obrigações estão concentradas em contratos de longo prazo para compra de GPUs (unidades de processamento gráfico) e servidores, além de arrendamentos de data centers que ainda não entraram em operação. Pelas regras contábeis atuais, esses compromissos não precisam ser registrados como dívida no balanço principal até que os ativos sejam entregues ou as instalações entrem em funcionamento. Em vez disso, eles aparecem em notas explicativas dos relatórios financeiros trimestrais.

Os números por empresa

O Nikkei Asia detalha que a Meta, dona do Facebook, WhatsApp e Instagram, é a empresa com o maior volume de obrigações fora do balanço: cerca de US$ 420 bilhões, quase o triplo de sua dívida registrada. A Oracle aparece em seguida, com US$ 273,3 bilhões em dívida oculta, um aumento de mais de 30 vezes em quatro anos, segundo o estudo.

A Oracle vem expandindo o projeto de data center Stargate em parceria com a OpenAI, utilizando contratos de arrendamento com operadores externos. A empresa também possui US$ 260 bilhões em compromissos futuros de arrendamento que, segundo seus documentos regulatórios, serão incorporados ao balanço à medida que as instalações entrarem em operação.

A Alphabet, segundo o Nikkei, mantém US$ 332,4 bilhões em compromissos de compra e outras obrigações contratuais. A Microsoft registra US$ 338,7 bilhões, e a Amazon, US$ 228,9 bilhões. A Nvidia, fornecedora de chips para IA, também aparece no levantamento com US$ 119 bilhões em obrigações futuras de compra.

Como funciona o mecanismo

De acordo com a reportagem do Nikkei Asia, o mecanismo é semelhante ao que a empresa de energia Enron utilizou antes de seu colapso em 2001. Na época, a Enron usou veículos fora do balanço (special purpose vehicles, ou SPVs) para esconder dívidas de investidores. A diferença, segundo analistas citados pela Bloomberg Law, é que as empresas de tecnologia atuais seguem as regras contábeis vigentes e divulgam essas obrigações em notas de rodapé de seus relatórios financeiros.

O consultor contábil Tom Selling, em entrevista à Bloomberg Law, afirmou que “o tratamento contábil em si está na moda. Mas e se uma dessas empresas fosse um castelo de cartas e estivesse se sustentando com esse tratamento contábil?”

Na prática, as empresas de tecnologia criam joint ventures ou entidades legais separadas para construir data centers. Essas entidades contraem dívidas para financiar a construção, enquanto a empresa de tecnologia assina contratos de longo prazo como inquilina ou compradora dos serviços. Como a dívida está no nome da entidade separada, e não no da empresa-mãe, ela não aparece no balanço principal.

Reação do mercado

O investidor Michael Burry, conhecido por ter previsto a crise financeira de 2008 (retratado no filme “A Grande Aposta”), publicou em 21 de julho em sua conta no X trechos do estudo do Nikkei Asia. Burry destacou que a dívida oculta das cinco empresas cresceu oito vezes em quatro anos e agora supera a dívida registrada.

Agências de classificação de risco também já sinalizaram preocupação. A S&P Global rebaixou a nota de crédito da Oracle este mês, citando em parte a “alavancagem esticada” da empresa. O Morgan Stanley publicou um relatório para investidores analisando o crescimento das obrigações fora do balanço. A Moody’s alertou em fevereiro sobre o ritmo acelerado de compromissos de arrendamento que ainda não começaram.

O Banco de Compensações Internacionais (BIS), em relatório de março de 2026, classificou esses arranjos como “shadow borrowing” (empréstimo-sombra), um mecanismo pelo qual as empresas aumentam compromissos financeiros sem adicionar dívida diretamente aos balanços. O BIS expressou preocupação com o risco de que projetos de data centers percam fôlego e que uma eventual frustração com a IA se espalhe pelo mercado.

O que pode acontecer

Segundo o Nikkei Asia, grande parte dessa dívida oculta será registrada no futuro. Quando os data centers entrarem em operação, as obrigações associadas poderão se tornar repentinamente concretas. Se a demanda por IA não crescer como o esperado e as taxas de utilização caírem, o valor desses ativos poderá diminuir, gerando perdas para os financiadores.

O estudo do Nikkei também aponta que a indústria de IA atual é sustentada em parte por uma demanda criada por investimentos circulares: a Nvidia e as grandes empresas de tecnologia investem em operadores de data centers e companhias de IA, e esse capital retorna na forma de compras de GPUs e pagamentos por serviços de nuvem. Como a demanda efetiva é difícil de medir, segundo a publicação, aumenta o risco de superinvestimento em data centers.

As empresas de tecnologia, por sua vez, argumentam que os lucros futuros com IA e computação em nuvem justificarão esses investimentos. A Microsoft, a Alphabet e a Amazon tinham, juntas, cerca de US$ 1,45 trilhão em contratos de serviços de nuvem já firmados até o fim de março, segundo o Nikkei.

Fontes: Nikkei Asia – Five US tech giants’ hidden debts soar to $1.65tn on opaque AI funding, Bloomberg Law – Big Tech AI Spree Revives Accounting Devices That Toppled Enron, BIS Quarterly Review – Financing the AI infrastructure boom, Finbold – Michael Burry sounds alarm on big tech’s $1.6 trillion hidden debt, Valor Econômico – Dívida oculta de gigantes de tecnologia dos EUA chega a US$ 1,65 trilhão