O alerta que o Tambotech já havia feito no início de 2026 ganhou um reforço de peso. O Bank for International Settlements (BIS), conhecido como o banco central dos bancos centrais, publicou no último domingo (28) seu Relatório Econômico Anual com um aviso direto: os gastos excessivos em infraestrutura de inteligência artificial, financiados por dívida e estruturas financeiras opacas, podem desencadear uma crise financeira global. A possibilidade de uma bolha de IA já era prevista para 2026, e o relatório do BIS confirma que o risco é real e imediato.

O documento de 133 páginas aponta que o boom de investimentos em data centers, chips e infraestrutura energética está sendo impulsionado por volumes crescentes de dívida corporativa, expondo fornecedores, construtoras e credores a uma eventual desaceleração no ritmo de adoção da tecnologia. O BIS fala em “perigo” crescente nos mercados financeiros diante da complexa teia de relações entre gigantes de IA, bancos paralelos (shadow banks) e construtoras de data centers.
“A estabilidade financeira pode estar em risco no caso de um estouro da bolha de IA”, afirma o relatório. “Se as hyperscalers desacelerarem ou interromperem o ritmo agressivo de investimento em capex, muitos tomadores de crédito ao longo da cadeia de suprimentos podem ter dificuldade para substituir a receita perdida e pagar suas dívidas.”
Dívida bilionária e exposição bancária
Os números dão dimensão ao alerta. Segundo estimativas do JPMorgan, as empresas de IA já emitiram cerca de US$ 1,2 trilhão em dívida, o dobro dos US$ 450 bilhões em compromissos de crédito comercial e industrial (C&I) que os grandes bancos americanos têm com setores adjacentes à IA. Desse total, US$ 50 bilhões estão concentrados em empresas de software com classificação de risco B ou inferior — a faixa mais especulativa, com alto risco de calote.
O Federal Reserve Bank de Chicago, em um estudo de fevereiro de 2026, já havia calculado que a exposição comprometida dos grandes bancos a setores como software, energia e semicondutores chega a 25% do capital Tier 1. A S&P global estima que os gastos globais em TI com IA atingiram US$ 430 bilhões em 2025 e podem superar US$ 1 trilhão até 2029.
O risco do excesso de otimismo
Pablo Hernández de Cos, diretor-geral do BIS, foi direto: “Um risco é que o investimento em larga escala em infraestrutura de IA se torne excessivo, à medida que cada empresa tenta superar os concorrentes e dominar participação de mercado. Isso pode deixar o setor mais vulnerável se a IA não entregar o esperado, possivelmente levando o atual boom de investimentos a um fim abrupto, com grandes consequências macroeconômicas.”
O relatório do BIS também destaca que o financiamento do boom da IA depende cada vez mais de estruturas complexas e opacas, envolvendo private credit, fundos de hedge altamente alavancados e instituições financeiras não-bancárias. Essa opacidade dificulta a avaliação do risco real por parte dos reguladores.
Escassez de chips e gargalos na construção
Além do risco financeiro, o BIS aponta outros gargalos que podem frear o crescimento do setor. A escassez de chips avançados, as limitações na construção de data centers e a falta de capacidade computacional suficiente para atender à demanda crescente são fatores que podem acelerar uma correção no mercado.
O estudo do Chicago Fed corrobora essa visão: a taxa de vacância de data centers nos principais mercados americanos atingiu mínimas históricas de 1,6% no primeiro semestre de 2025, e 74% dos espaços em construção já estão pré-alugados. Qualquer desaceleração na demanda por IA deixaria esses ativos ociosos e seus financiadores expostos.
O alerta do BIS chega em um momento em que a economia global já enfrenta pressões inflacionárias renovadas, dívida pública em níveis recordes e mercados de títulos soberanos cada vez mais dominados por fundos de hedge alavancados. Para o investidor comum e o profissional de TI, a mensagem é clara: o entusiasmo com a inteligência artificial precisa ser acompanhado de cautela, porque o que sobe rápido também pode desabar.
Fonte: The Telegraph e Reuters




