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IARAA: a inteligência artificial do MST para a agroecologia

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) lançou em janeiro de 2026 sua própria inteligência artificial. Batizada de IARAA. Inteligência Artificial da Reforma Agrária e Agroecologia,, a ferramenta foi apresentada durante o 14º Encontro Nacional do MST, em Salvador (BA), e representa a primeira iniciativa do tipo por um movimento social no Brasil.

IARAA
Imagem gerada por IA com Google Nano Banana 2 Flash

Diferente dos grandes modelos de IA desenvolvidos por big techs norte-americanas, a IARAA foi construída com um propósito específico: servir à agroecologia e à reforma agrária popular, combinando tecnologia de ponta com saberes históricos dos movimentos do campo.

O que é a IARAA

A IARAA é uma inteligência artificial generativa, uma LLM (Large Language Model) com base de conhecimento própria, alimentada por livros, cartilhas, documentos técnicos do MST, produções acadêmicas de universidades e instituições de pesquisa. O objetivo é sistematizar milhares de artigos, relatos de experiência e teses produzidas pelos institutos de formação do movimento, um volume de informação que seria impossível de ser assimilado individualmente.

A ferramenta foi desenvolvida pela Associação Internacional para Cooperação Popular (Baobá), em parceria com o MST e a Marcha Mundial das Mulheres (MMM). Segundo Luiz Zarref, coordenador da Baobá para a América Latina, a IARAA tem “um pé na tecnologia chinesa”, militantes do movimento participaram de um curso sobre IA para movimentos do Sul global em Xangai, em julho de 2025.

Como funciona

A IARAA opera com três eixos principais de entrada, cada um voltado a um público diferente:

Semeadura, direcionado a quem trabalha diretamente no campo, com orientações práticas sobre plantio, manejo e controle de pragas.

Mutirão, focado em ações coletivas, organização de cooperativas e planejamento comunitário.

Assistência técnica, voltado a técnicos agrícolas e dirigentes de cooperativas, com análises aprofundadas sobre sistemas agroflorestais, controle agroecológico de pragas e estudos sobre o papel da agroecologia na formação da consciência de classe, sob uma perspectiva marxista.

A base de conhecimento inclui documentos do Iterra (Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária) e do Instituto Educacional Josué de Castro (IEJC), além de materiais de universidades e ONGs. Futuramente, a ideia é integrar também dados da Embrapa.

O acesso à IARAA é gratuito e pode ser feito pelo site baobab.iapc.group/pt/iaraa/.

Arquitetura técnica

A base de conhecimento da IARAA funciona sobre uma arquitetura chamada RAG (Retrieval-Augmented Generation). Na prática, isso significa que a IA não foi treinada do zero com dados gerais da internet, ela usa um modelo de linguagem de grande escala (LLM) como motor de compreensão e geração de texto, e busca as informações específicas em uma base de conhecimento curada e validada pelos movimentos populares.

A IARAA utiliza duas arquiteturas distintas, que interagem com um único modelo de linguagem. Os perfis “Semeadura” e “Mutirão” usam a arquitetura RAGFlow, um mecanismo de código aberto baseado na compreensão profunda de documentos. Quando integrado ao LLM, o RAGFlow é capaz de fornecer respostas apoiadas por fontes específicas da base de conhecimento.

Já o perfil “Quintal Produtivo” utiliza a arquitetura Meta-RAG, uma plataforma experimental de automação de pesquisa desenvolvida exclusivamente para a IARAA. Nela, os fluxos de trabalho são compostos por múltiplos agentes reutilizáveis, que usam instruções em linguagem natural e iteram na base de conhecimento (RAG) para produzir relatórios mais extensos.

O modelo de linguagem que alimenta a IARAA é o DeepSeek V4, a versão mais recente do modelo chinês de código aberto da startup DeepSeek. Não está claro, no entanto, se a IARAA usa o DeepSeek V4 completo ou uma versão destilada, e nem onde exatamente o modelo é processado (se em servidores próprios dos movimentos ou em infraestrutura terceirizada). Como toda IA em 2026, esses detalhes mudam rápido e podem evoluir com o tempo.

A decisão de desenvolver uma inteligência artificial própria reflete uma preocupação estratégica: as big techs que dominam o mercado de IA. Google, OpenAI, Microsoft, estão ligadas ao agronegócio e seus modelos não contemplam as necessidades específicas da agricultura familiar e da agroecologia.

Além disso, o próprio MST já foi alvo de desinformação gerada por IA. Em janeiro de 2026, circulou um vídeo falso utilizando a imagem e os símbolos do movimento, com voz clonada por inteligência artificial, simulando uma invasão aos Estados Unidos, compartilhado por políticos nas redes sociais. Ter uma ferramenta própria de IA é também uma forma de defesa e soberania tecnológica.

Segundo dados citados pelo Observatório da Imprensa, 57% do conteúdo que circula na web em 2025 foi produzido por robôs, e 22,6% são bots maliciosos criados para disseminar desinformação. Nesse cenário, a IARAA se posiciona como uma alternativa que prioriza a soberania de dados e o controle popular.

Tecnologia e custo

A IARAA é uma inteligência artificial generativa, baseada em modelo de linguagem de grande escala (LLM), mas com uma base de conhecimento curada e direcionada à agroecologia. O acesso é gratuito, via celular ou computador, embora, na fase inicial, possa ficar restrito a cooperativas e associações devido a limitações de infraestrutura.

O desenvolvimento foi viabilizado pelo intercâmbio com a China, que permitiu acesso a uma lógica de desenvolvimento tecnológico diferente da adotada pelas big techs. Enquanto os grandes modelos de IA são construídos sob o signo do lucro e da propriedade privada dos dados, a IARAA segue um modelo de desenvolvimento voltado à prosperidade comum.

O lançamento oficial

Após a fase de testes iniciada em janeiro, o lançamento oficial da IARAA está previsto para maio de 2026, durante a Feira Nacional da Reforma Agrária, em São Paulo. O grande desafio, segundo os coordenadores do projeto, é a massificação: sair das experiências piloto e alcançar todas as cadeias produtivas e biomas do Brasil.

A IARAA não substitui o trabalho de assistência técnica, ela atua como suporte, ampliando a capacidade de atendimento e sistematizando o conhecimento acumulado por décadas de luta e produção no campo. É, acima de tudo, um instrumento de apropriação popular da tecnologia.

Fonte: MST, Brasil de Fato, Observatório da Imprensa e Baobab – IARAA