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Manus deixa a Meta e volta a operar como empresa independente

A Manus, uma das startups de inteligência artificial mais comentadas dos últimos anos, anunciou na terça-feira (11) que vai voltar a operar como empresa independente. O aviso veio em comunicado oficial publicado no blog da companhia e tem efeito prático imediato para milhões de usuários: parte deles precisa fazer backup dos dados até o dia 23 de agosto, ou vai perder tudo.

Aviso da Manus pedindo backup dos dados antes da exclusão
Aviso da Manus aos usuários afetados: dados serão excluídos após o fim do período de backup.

O que acontece agora

Segundo a Manus, os dados gerados por usuários afetados a partir de 29 de dezembro de 2025 serão excluídos entre os dias 23 e 24 de agosto, no horário de Singapura. A janela de backup fica aberta até as 7h59 do dia 23 (SGT), o que corresponde a 20h59 de sábado, 22 de agosto, no horário de Brasília. A restauração dos dados começa às 8h de 25 de agosto, ou 21h de 24 de agosto em Brasília.

A empresa criou uma ferramenta de backup e um portal de restauração para facilitar o processo. Quem for afetado não paga pela assinatura durante o período de backup e ainda ganha bônus de boas-vindas depois de restaurar os dados. No FAQ oficial, a Manus faz questão de esclarecer que a medida não tem relação com ataque hacker ou vazamento: é uma exigência regulatória ligada à separação da Meta.

O que é a Manus

A Manus virou assunto no início de 2025 ao se apresentar como o primeiro agente de IA geral do mundo. Diferente de um chatbot, que responde perguntas, o agente executa tarefas completas sozinho: pesquisa informações, monta sites, organiza planilhas e escreve código com pouca ou nenhuma supervisão humana. O lançamento em modo convite viralizou a ponto de códigos de acesso serem revendidos por centenas de dólares.

Um ponto que gera confusão: a Manus não tem relação corporativa com a OpenAI. A empresa não desenvolve modelo próprio e usa modelos de terceiros, como Claude, da Anthropic, e Qwen, da Alibaba, para orquestrar as tarefas. Na prática, ela compete com ferramentas como o Operator e o Deep Research, ambos da OpenAI. Quem quiser entender a proposta pode conferir o artigo que o Tambotech publicou sobre o OpenManus, uma alternativa de código aberto ao agente.

A startup nasceu incubada na China, dentro da Butterfly Effect, a empresa por trás da extensão Monica. Em julho de 2025, fechou os escritórios no país e transferiu a operação para Singapura, movimentação feita sem aval dos reguladores chineses e que depois pesou contra ela. O crescimento de receita foi acelerado: a companhia diz ter chegado a US$ 100 milhões de receita recorrente anual em oito meses, recorde entre startups.

A linha do tempo do caso Meta

Em 29 de dezembro de 2025, a Meta anunciou a compra da Manus por cerca de US$ 2 bilhões. O objetivo era turbinar a aposta da dona de Facebook e Instagram em agentes de IA. Dias depois, em janeiro de 2026, o Ministério do Comércio da China anunciou uma avaliação do negócio, citando regras de exportação de tecnologia e investimento estrangeiro.

Em 27 de abril, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, órgão de planejamento econômico do país, mandou reverter a transação e proibiu investimento estrangeiro na Manus. Foi um movimento raro: Pequim raramente exige o cancelamento de um negócio já concluído. Em junho, a Meta concluiu a separação operacional, cortou o acesso da Manus aos sistemas internos e interrompeu o compartilhamento de dados entre as empresas.

Por que a China desfez a venda

A decisão de Pequim entrou no tabuleiro da disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. Para o governo chinês, a venda de uma empresa de IA com raízes chinesas para uma gigante americana representava risco à segurança nacional, perda de talentos e transferência de tecnologia considerada estratégica. A ordem saiu semanas antes da cúpula marcada entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping, em Pequim.

Há ainda a leitura de que a Manus tentou driblar as regras. A mudança para Singapura sem aprovação dos reguladores foi vista como uma forma de escapar tanto das restrições americanas a investimento em IA chinesa quanto das leis locais de transferência de propriedade intelectual. Analistas chamaram a prática de Singapore-washing, e o caso Manus virou um marco na revisão desse tipo de manobra.

O que muda com a Tencent no comando

A volta à independência passa por uma recomposição societária. Segundo reportagens de Bloomberg, Financial Times e The Information, um grupo de investidores originais, liderado pela Tencent, negocia recomprar a Manus da Meta pelo mesmo valor pago na aquisição: US$ 2 bilhões. A Tencent, dona do WeChat, deve se tornar a maior acionista, com planos de integrar o agente ao mensageiro. Fundos como ZhenFund e HSG participam da operação, enquanto a americana Benchmark fica de fora.

O negócio ganhou contornos curiosos porque a Manus ficou mais valiosa dentro da Meta. A receita anualizada da companhia, de cerca de US$ 100 milhões na compra, saltou para algo entre US$ 400 milhões e US$ 500 milhões com o acesso ao tráfego e aos canais de anúncios da dona do Instagram. A recompra pelo preço original saiu vantajosa para os investidores chineses. Nos bastidores, há planos de reestruturar a Manus como joint venture com sede na China e abrir capital em Hong Kong. No Brasil, a Tencent já notificou o Cade sobre a operação em 30 de julho.

O que os usuários precisam fazer

Quem usa a Manus deve checar o e-mail e as notificações do aplicativo. Usuários que se cadastraram com Apple ID ou conta do Facebook não recebem e-mail e precisam olhar as notificações dentro do app. A empresa avisa que vai enviar vários lembretes antes do fim da janela de backup.

Para os afetados, a orientação é direta: fazer backup antes das 7h59 de 23 de agosto no horário de Singapura, o que em Brasília significa o sábado, 22 de agosto, às 20h59. A conta fica inacessível nos dias 23 e 24 e volta a funcionar com os dados restaurados a partir de 25 de agosto. Quem não for afetado não precisa fazer nada.

Para usuários brasileiros, vale redobrar a atenção ao fuso. Como a janela fecha no sábado à noite por aqui, o recomendado é não deixar para a última hora e revisar se a conta recebeu algum aviso. Para quem usa o agente em trabalho, os dois dias sem acesso precisam entrar no planejamento.

A Manus diz que já prepara uma série de novos recursos e que segue comprometida com a iteração do produto. Para os usuários afetados, porém, a regra é clara: quem não fizer backup até o fim da janela perde os dados gerados desde a chegada da Meta, sem chance de recuperação.

Fonte: Manus | CNBC | O Globo