O mercado americano de smartphones vive um paradoxo, segundo Dominic Preston, do The Verge. Em um artigo publicado em abril, o jornalista afirma que as empresas que dominam as vendas nos Estados Unidos, Apple, Samsung e Google, estagnaram em inovação de hardware enquanto fabricantes chinesas dispararam à frente. O texto escancara o abismo que se formou entre o que se vende nos EUA e o que está disponível no resto do mundo.

O diagnóstico é direto: Apple e Samsung controlam 84% do mercado americano, segundo a Omdia, mas há anos entregam atualizações incrementais enquanto chinesas como Xiaomi, Oppo, Vivo e Honor avançam em baterias, câmeras e design. O resultado é que o consumidor americano paga caro por tecnologia que, em vários aspectos, já está defasada.
O abismo das baterias
O exemplo mais gritante está nas baterias. Fabricantes chinesas adotaram em massa as células de silício-carbono, que substituem parte do grafite no ânodo por silício, aumentando a densidade energética em até 20%. Enquanto o Samsung Galaxy S26 Ultra ainda usa íon-lítio com 5.000 mAh, o OnePlus 15 entrega 7.300 mAh no mesmo espaço físico. O Oppo Find X9 Ultra tem 7.050 mAh e carregamento de 100 W, contra 40 W do iPhone 17 Pro Max.
A Honor foi pioneira em 2023 com o Magic5 Pro, e hoje seus dobráveis chegam a 7.150 mAh. A Motorola se tornou a primeira marca a oferecer baterias de silício-carbono em celulares vendidos por operadoras americanas, com o Razr Fold de 6.000 mAh disponível na T-Mobile e Verizon. Apple, Samsung e Google, por outro lado, ainda não lançaram nenhum aparelho com a tecnologia. A Samsung reconheceu publicamente que está “atrasada” e prometeu células de silício-carbono para a linha Galaxy S27, prevista para 2027.
Câmeras: o campo de batalha esquecido
Se as baterias são o exemplo mais recente, as câmeras são o caso mais antigo de estagnação. O Samsung Galaxy S26 e S26 Plus trazem sensores praticamente idênticos aos do S22, lançado em 2022. Enquanto isso, Xiaomi, Oppo e Vivo disputam quem tem o maior sensor, a maior resolução e a parceria de óptica mais prestigiada: Zeiss, Leica e Hasselblad, respectivamente.
O Vivo X300 Ultra, que não chega aos EUA, tem três câmeras traseiras de 200 MP, bateria de 6.600 mAh e suporte a lentes teleobjetivas externas. O Xiaomi 17 Ultra Leitzphone traz um anel giratório para controle de zoom óptico contínuo. São recursos que simplesmente não existem nas prateleiras americanas.
O jornalista Dominic Preston, do The Verge, testou o Pixel 10 Pro XL, um dos melhores celulares com câmera disponíveis nos EUA — e passou a semana “frustrado” com o quão limitadas suas câmeras pareciam diante dos flagships chineses.
Um mercado de dois players (e cada vez menos)
O mercado americano é um duopólio. Apple tem 60% de participação, Samsung 24%. Google Pixel mal chega a 3%. Motorola cresce no segmento de entrada, mas não compete no topo de linha. E as opções estão diminuindo: a OnePlus, que era a alternativa mais viável para quem queria fugir do duopólio, está sendo removida das lojas Best Buy e pode encerrar operações nos EUA. A marca foi substituída nas prateleiras pela Nothing, que ainda tem presença modesta.
O problema não é apenas a falta de concorrência, mas a ausência total de marcas que hoje lideram a inovação global. Xiaomi, Oppo, Vivo e Honor simplesmente não vendem nos EUA, barradas por regulações governamentais, acordos de operadoras e ceticismo político em relação a empresas chinesas. O consumidor americano não tem escolha, e sem escolha não há pressão para inovar.
John Ternus pode mudar o jogo?
A esperança, segundo o The Verge, está na troca de comando da Apple. John Ternus, atual vice-presidente sênior de engenharia de hardware, assume como CEO em 1º de setembro de 2026, substituindo Tim Cook. Ternus tem reputação de engenheiro que gosta de empurrar limites técnicos: esteve à frente do Apple Silicon, do Vision Pro e do MacBook Neo. Mas também carrega um “olho cookiano para cortar custos”, como descreveu Dominic Preston.
A Apple ainda é a maior fabricante de smartphones do mundo, e Ternus herda a empresa em um momento crucial. O iPhone 18, previsto para setembro, pode trazer o primeiro iPhone dobrável (o iPhone Ultra) e, quem sabe, as primeiras baterias de silício-carbono da Apple. Se Ternus decidir acelerar o ritmo de inovação, o resto do mercado americano pode ser forçado a acompanhar.
Mas não há garantias. O custo dos componentes só sobe, e a Apple continua imprimindo dinheiro com seu ecossistema. Para o consumidor americano, a pergunta que fica é: quanto tempo mais ele vai aceitar pagar cada vez mais por celulares que, em aspectos fundamentais, estão atrás do que se vende na China e na Europa?
Fontes: The Verge — Dominic Preston, Android Authority — Motorola silicon-carbon batteries, PhoneArena — US market Q1 2026, Android Authority — OnePlus US exit, AnIntent — Silicon-carbon battery lead, TechCrunch — John Ternus




