Uma patente registrada pelo Google em 2023 voltou a circular com força nas últimas semanas, e ela sugere que o objetivo do SEO pode estar mudando de forma silenciosa. O documento, intitulado “Data extraction using LLMs” (WO2025063948A1), descreve um sistema que usa modelos de linguagem para ler um site inteiro, não página por página, e criar o que a empresa chama de “caracterização profunda e holística” da empresa, marca ou produto por trás daquele domínio.

O artigo do Search Engine Land, publicado por Rich Sanger em 22 de junho, traduz a virada em uma frase: o SEO está deixando de ser sobre ranquear páginas e passando a ser sobre ensinar a IA quem você é. Mas desde então, outros analistas se debruçaram sobre o mesmo documento e encontraram implicações que merecem atenção.
O que diz a patente
O sistema descrito na patente funciona em quatro etapas. Primeiro, identifica um domínio e a entidade associada, uma empresa, um produto ou uma pessoa. Depois, vasculha todas as páginas daquele domínio, extraindo informações como idade, princípios, serviços, reputação e até o sentimento das redes sociais.
O diferencial está no que acontece depois. Em vez de copiar trechos, o sistema interpreta o conteúdo e gera uma caracterização original, o que a patente chama de “interpretação do conteúdo extraído, não uma duplicação textual”. A ideia é construir um entendimento da entidade como um todo, e não apenas indexar páginas individuais. O sistema também busca fontes externas, Google Maps, avaliações de usuários, vagas de emprego e dados públicos, para complementar o que encontrou no site da empresa.
O analista de SEO Olaf Kopp, que já havia analisado a mesma patente em fevereiro para o Search Engine Land, descreve o sistema como algo que “trata o site inteiro como um único prompt” para um LLM. Segundo Kopp, a caracterização gerada é organizada em um grafo hierárquico, nós pai para categorias amplas (como “serviços”) e nós filho para detalhes específicos (como “preços”). Isso significa que cada página do site contribui para uma única narrativa de marca, e contradições entre páginas produzem uma caracterização fragmentada.
O que isso muda no SEO
Se esse tipo de entendimento se tornar mais influente dentro do Google, as implicações são grandes. Até hoje, o SEO era essencialmente fazer uma página ranquear para uma palavra-chave. A patente sugere que o próximo passo é garantir que a IA entenda corretamente quem é a entidade por trás daquela página.
Cada página do site passa a ser também uma peça de evidência sobre a identidade da empresa. Uma página de serviços não serve só para ranquear “serviço X”, ela ajuda a IA a entender o que a empresa faz. Um estudo de caso não atrai só tráfego, demonstra experiência. Avaliações de clientes contribuem para a reputação. O nome, endereço e telefone precisam ser idênticos no site, no Google Maps e em qualquer diretório onde a empresa apareça.
Ken W. Button, em análise publicada no Button Block, destaca um detalhe técnico importante: a propriedade sameAs do Schema.org, que conecta a declaração de entidade do site a fontes externas como Wikipedia, Wikidata e perfis oficiais. Para Button, “sinal de altíssimo valor e custo quase zero” que a maioria das empresas ignora. Quanto mais sameAs links a marca fornece para fontes confiáveis, maior a confiança da IA na hora de desambiguar e recomendar aquela entidade.
O Link Building Journal vai além e coloca a patente no contexto mais amplo do Entity SEO, a disciplina de fazer sua marca ser reconhecida como uma entidade distinta e confiável pelos sistemas de IA. O artigo argumenta que existem três camadas: reconhecimento (a IA sabe que você existe), desambiguação (ela sabe quem exatamente você é) e corroboração (fontes independentes confirmam o que você diz sobre si mesmo). A patente do Google ataca principalmente a segunda camada, mas a terceira, terceiros falando de você de forma consistente, é o maior vetor de alavancagem.
Dados que reforçam a mudança
Não são apenas especulações. Dados compilados por diferentes análises ajudam a dimensionar o fenômeno:
O Button Block reporta que menos de 25% das marcas mais mencionadas na web também são as mais citadas por plataformas de IA. Isso significa que ser famoso não basta, é preciso que a IA entenda sua identidade com clareza suficiente para te incluir na resposta. A mesma análise encontrou uma correlação de 0,664 entre menções de marca e visibilidade em AI Overviews, contra apenas 0,218 para backlinks, um indicativo de que a construção de identidade consistente está se tornando mais relevante que a construção de links tradicional.
O SEO Vendor reforça que 50% das buscas no Google já mostram resumos gerados por IA. Se a marca não está nesses resumos, simplesmente não está na conversa. E o Loganix, em seu guia de Entity SEO para LLMs, descreve o que chama de “L2, profundidade de entidade”: o nível de conhecimento que a IA tem sobre sua marca, construído por menções em veículos autoritativos, citações em artigos de terceiros e uma presença digital consistente ao longo de meses e anos.
Como Rich Sanger resume: “AI can’t recommend what it doesn’t understand”, a IA não pode recomendar o que não entende.
A patente não significa que o Google já está usando o sistema em produção. Muitas patentes nunca viram produto. Mas a convergência de análises de diferentes especialistas, Kopp, Button, Manish, aponta na mesma direção: o Google está pensando seriamente em como construir entendimento de entidades usando LLMs. E isso, por si só, já é um sinal de que o SEO tradicional pode estar com os dias contados.
Fontes: Search Engine Land – Rich Sanger, Search Engine Land – Olaf Kopp, Button Block – Ken W. Button, Link Building Journal – Manish




