Quando a Apple, empresa com as margens mais generosas e o maior poder de barganha da cadeia de suprimentos de tecnologia, anuncia aumentos de preço em 14 produtos de uma só vez, o sinal de alerta é geral. A gigante de Cupertino elevou os preços de todos os Macs, iPads, HomePods, Apple TV e Vision Pro nesta semana, em resposta ao que o setor já chama de “RAMageddon”: a crise global de memória causada pela corrida da inteligência artificial. A situação é tão grave que, enquanto muitos não estão prontos nem para produzir conteúdo com IA, a indústria inteira está redesenhando seus preços por causa dela.

O que é o RAMageddon
RAMageddon é a junção de RAM (memória) com Armageddon, o apocalipse da memória. O termo foi cunhado por analistas para descrever a disparada sem precedentes nos preços de chips de memória DRAM e armazenamento NAND, que começou no final de 2025 e se intensificou em 2026.
Segundo a consultoria TrendForce, os preços da memória DRAM subiram até 98% no primeiro trimestre de 2026 e devem avançar mais 58% a 63% no trimestre atual. A memória NAND (usada em SSDs) também disparou, com altas de 55% a 60% no mesmo período. Em termos práticos, os custos de memória e armazenamento quadruplicaram nos últimos três trimestres, de acordo com a Counterpoint Research.
A causa principal não é segredo: a explosão dos data centers de IA. Empresas como Nvidia, OpenAI, Google e Microsoft estão consumindo uma fatia cada vez maior da produção mundial de memória para alimentar seus servidores de IA. Estima-se que, em 2026, os data centers vão consumir até 70% de toda a produção global de memória, ou seja, de cada dez chips fabricados, sete vão direto para a IA.
Os três maiores fabricantes do mundo, Samsung, SK Hynix e Micron redirecionaram suas linhas de produção para a memória de alta largura de banda (HBM), usada em servidores de IA, onde as margens são muito maiores. O resultado é uma escassez de memória convencional que afeta tudo: de consoles a laptops, de celulares a carros.
O aumento da Apple
No dia 25 de junho, a Apple aplicou reajustes que variam de US$ 100 a US$ 1.300. O MacBook Neo, lançado em março com a promessa de ser o Mac “acessível” a US$ 599, agora custa US$ 699. O MacBook Pro de 14 polegadas subiu de US$ 1.699 para US$ 1.999. O iPad Air foi de US$ 599 para US$ 749. Até o Vision Pro passou de US$ 3.499 para US$ 3.699.
No Brasil, os impactos são ainda mais agressivos. Segundo levantamento do TecMundo, os iPads ficaram até R$ 5,7 mil mais caros (alta de 33%), enquanto os Macs tiveram acréscimos de até R$ 5 mil. O MacBook Neo, que custava R$ 7,3 mil, passou para R$ 8,5 mil.
“Nunca vimos um aumento de preço de componente tão grande e tão rápido”, afirmou a Apple em comunicado. O CEO Tim Cook já havia sinalizado em abril que os custos de memória se tornariam “insustentáveis”, e que a empresa vinha “protegendo os clientes” até onde era possível.
O iPhone escapou dos reajustes por enquanto. Analistas da TechInsights estimam que o iPhone 18, previsto para setembro, pode precisar de um aumento de até US$ 270 no modelo Pro para preservar as margens da empresa. A JPMorgan projeta um reajuste mais modesto, de até US$ 50, mas ninguém acredita que a linha iPhone ficará imune.
A Apple não está sozinha. Microsoft, Samsung, Lenovo, HP, Dell, Sony (PlayStation), Microsoft (Xbox), Nintendo (Switch), Valve (Steam Deck), Meta (Quest 3) e até a Raspberry Pi já aumentaram preços por causa da crise de memória. A fabricante Micron, uma das três gigantes do setor, projeta que a escassez deve durar até 2027.
A pergunta que fica é: será que devemos esperar mais uma vez para investir em tecnologia?
Fontes: The Verge – Allison Johnson, Fortune – Alexei Oreskovic, G1, Exame, TecMundo




