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UE tropeça em plano de data centers de IA por atrasos e verba

O plano de 20 bilhões de euros (cerca de 23,3 bilhões de dólares) da União Europeia para construir cinco gigafábricas de inteligência artificial está perdendo fôlego antes de começar. Atrasos sucessivos no cronograma de licitação, falta de clareza sobre o financiamento e perda de interesse de potenciais parceiros ameaçam descaracterizar a iniciativa, segundo fontes ouvidas pela Bloomberg.

Imagem gerada por IA com gpt-2

Anunciado no início de 2025 pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o programa prevê cinco grandes data centers, cada um com capacidade de 1 gigawatt e cerca de 100 mil chips avançados, para treinar e rodar modelos de IA. A UE aportaria 4,1 bilhões de euros em subsídios, valores equivalentes dos países-sede e investimento privado para o restante.

Atrasos e reduzimento de interesse

O processo de licitação, previsto para começar em maio, foi adiado para julho, confirmou o ministro digital da Polônia, Dariusz Standerski, que participa das negociações. O financiamento virá em duas fases, com verbas reservadas para 2028 e 2030, ou seja, anos depois de quando a infraestrutura seria necessária.

A pesquisadora de políticas Maria Nowicka, do think tank Interface, em Bruxelas, sintetizou o sentimento geral: “Acho que perdi a conta de todos os atrasos. Há muito pouca clareza.”

O desânimo é mensurável. O projeto despertou interesse inicial de cerca de 70 empresas. Esse número encolheu para aproximadamente dez grupos que devem apresentar propostas, com no máximo uma por país. A falta de garantias de demanda e o cronograma de subsídios fez ao menos dois consórcios reconsiderar a participação.

Empresas constroem por conta própria

Em vez de aguardar Bruxelas, empresas já avançam sozinhas. O Grupo Schwarz, dono da rede de supermercados Lidl, que havia demonstrado interesse em liderar um consórcio na Alemanha, está construindo seu próprio data center ao sul de Berlim. O processo licitatório longo e as metas em movimento reduziram o entusiasmo, segundo uma fonte familiarizada.

A Deutsche Telekom segue na mesma direção e planeja dobrar para 20 mil o número de processadores da Nvidia em uma unidade em Munique. O CEO Tim Hoettges afirmou que só participará de uma gigafábrica se clientes da indústria e do governo garantirem demanda. Na Espanha, a Telefónica lidera uma proposta, mas estuda manter apenas 10% a 15% de uma joint venture.

Desproporção frente aos EUA e Ásia

O contraste com o que acontece fora da Europa é gritante. A SoftBank anunciou até 75 bilhões de euros em investimento em data centers na França, mais que três vezes todo o programa da UE. A Meta levanta 13 bilhões de dólares para um único data center no Texas.

Utilidades dos Estados Unidos planejam gastar 1,4 trilhão de dólares em infraestrutura de rede para IA até 2030. Empresas como Microsoft, Google e Amazon investem centenas de bilhões de dólares por ano em data centers, inclusive em solo europeu. Os 4,1 bilhões de euros de subsídios diretos da UE, distribuídos entre cinco países, são modestos diante do que companhias individuais gastam por instalação.

Rebaixamento do projeto

Em junho de 2026, a Comissão Europeia reduziu a ambição do projeto. Em vez de cinco data centers com 100 mil chips cada, o novo edital busca sete centros menores: quatro com no mínimo 25 mil GPUs e três com pelo menos 40 mil processadores, na primeira fase. O documento de estratégia de junho já fala em “mais de 75 mil chips” por instalação, em vez dos “mais de 100 mil” prometidos em abril de 2025.

Anders Jensen, chefe da EuroHPC Joint Undertaking, confirmou que a primeira fase será financiada pelo orçamento plurianual atual, que expira no próximo ano. A segunda fase dependerá de o próximo orçamento da UE liberar verba, em negociações entre capitais e Parlamento. Se o dinheiro não vier, a expansão fica parada.

Eco do fracasso do Chips Act

As dificuldades das gigafábricas lembram a experiência da UE com o Chips Act de 2022, que tinha como meta dobrar a participação europeia na produção global de semicondutores até 2030. Um relatório do Tribunal de Contas Europeu, publicado em abril de 2025, classificou a estratégia como “profundamente desconectada da realidade” e “muito improvável” de alcançar a meta de 20% do mercado.

A previsão da própria Comissão é que a participação da UE suba de 9,8% em 2022 para apenas 11,7% em 2030, longe dos 20% ambicionados. A Comissão respondeu por apenas 4,5 bilhões de euros dos 86 bilhões estimados do Chips Act até 2030; o restante depende de estados-membros e da iniciativa privada.

Soberania tecnológica sob pressão

Em junho de 2026, a Comissão apresentou um pacote de soberania tecnológica de 422 bilhões de euros para a próxima década, com foco em data centers, semicondutores, nuvem, IA e software de código aberto. Críticos apontam que a Europa detém apenas 5% da capacidade global de computação para IA, contra 80% dos Estados Unidos. A economista Cristina Caffarra classificou as medidas como “muito fracas” e alertou que as empresas americanas de hiperscala ainda dominam 70% do mercado de nuvem europeu.

A CEO da Mistral AI, a startup de IA mais valiosa da Europa, Arthur Mensch, afirmou que o escopo do projeto deveria ser mais amplo do que financiar projetos nacionais isolados. “Qualquer iniciativa bem-sucedida nessa área precisa ser em escala europeia e muito maior do que o que está enquadrado no programa”, disse Mensch em entrevista.

Para as empresas que já avançaram por conta própria, as garantias de Bruxelas podem chegar tarde demais para fazer diferença.

Fontes: Bloomberg, The Next Web, Euractiv, Bloomberg (18/06), The Guardian, Yahoo Finance, Founder News