Hoje, as ações da IBM despencaram 25% no pior pregão da sua história centenária, pior até que a Black Monday de 1987, quando o mercado inteiro quebrou. O motivo? Uma carta do CEO Arvind Krishna divulgando a prévia dos resultados do segundo trimestre: receita de US$ 17,2 bilhões contra os US$ 17,86 bilhões esperados. A infraestrutura caiu 7%. Grandes contratos não fecharam. Krishna foi direto: “falhamos, não nos adaptamos com rapidez suficiente”.
Agora, vamos entender o que está por trás desses números e por que, na opinião de Gabriel Subtil, o mercado está sendo precipitado.
O que a IBM realmente disse
Vale ler a carta que Krishna enviou com atenção. O que ele descreveu não foi um colapso de demanda, mas uma realocação temporária de orçamento. Clientes corporativos, especialmente bancos e seguradoras, anteciparam a compra de servidores, armazenamento e memória para escapar de aumentos de preço em componentes escassos, o chamado “RAMageddon” que elevou os preços de memória entre 20% e 40%.
Nas palavras dele: “não antecipamos a magnitude da reorientação de capex”. Ou seja, os clientes não deixaram de gastar com a IBM: eles gastaram antes com hardware de terceiros porque o preço ia subir. É um problema de timing, não de demanda. A prova? O Red Hat cresceu 11% no trimestre. A divisão de infraestrutura distribuída teve o melhor desempenho da história, com alta de 37%. A receita de software subiu 5%.
E a IBM continua inovando em velocidade industrial. Sete dias antes do anúncio, no dia 8 de julho, a empresa lançou o Lightwell: um compromisso de US$ 5 bilhões com mais de 20 mil engenheiros para criar um centro de confiança em segurança de código aberto. Os primeiros adotantes incluem Bank of America, Citi, Goldman Sachs, JPMorgan, Mastercard, Morgan Stanley, Visa e Wells Fargo. Nada disso parece empresa em crise.
Uma reação exagerada
A queda de 25% apagou cerca de US$ 55 bilhões em valor de mercado em um único dia. E a narrativa que se formou foi a de que a IBM “perdeu o bonde da IA”. Mas essa conclusão é apressada, e na opinião de Gabriel Subtil, especialista em tecnologia e dono do Tambotech revela mais sobre o momento especulativo do mercado do que sobre a saúde da empresa.
A IBM foi fundada em 1911. Ela processa 70% das transações financeiras do mundo. Noventa e três por cento das empresas da Fortune 500 usam seus produtos de nuvem híbrida. O mainframe z16, que está no fim do seu ciclo, teve o melhor lançamento da história da empresa, com 130% de adesão em relação ao ciclo anterior, enquanto o mercado aguarda a próxima geração (z17). Nenhuma startup de IA pode competir com esse tipo de capilaridade institucional.
O mercado está tratando uma empresa centenária como se ela fosse uma aposta de série B que perdeu o product-market fit. Não é. A IBM não precisa vencer a corrida dos modelos generativos para ser relevante na IA, porque a verdadeira corrida da inteligência artificial é muito maior que um chat.
IA é muito mais que modelos generativos
Muita gente reduz “inteligência artificial” a chatbots e geradores de imagem. A IBM sabe disso melhor que ninguém. O Watson, que derrotou campeões do Jeopardy! em 2011, foi o primeiro grande susto de IA que o mundo levou a sério. A empresa investe em IA aplicada há mais de uma década, do watsonx ao Red Hat OpenShift AI, passando por sistemas de detecção de fraude em tempo real embarcados nos próprios mainframes.
Hoje, a IBM opera a maior frota de computadores quânticos do mundo, acessada por mais de 300 organizações incluindo Boeing e Cleveland Clinic. A empresa anunciou planos de investir mais de US$ 10 bilhões em computação quântica nos próximos cinco anos e está construindo a Anderon, a primeira foundry de wafers quânticos do mundo, em parceria com o estado de Nova York no Albany NanoTech Complex, com US$ 1 bilhão do Departamento de Comércio dos EUA e mais US$ 1 bilhão em contribuição própria. O primeiro computador quântico fault-tolerant em larga escala está prometido para 2029.
É atuar em uma frente que a maioria das empresas sequer considera e que será decisiva na próxima década.
O gargalo real da IA não é o modelo, é a energia e a engenharia
Enquanto o mercado debate qual modelo generativo é melhor, o verdadeiro gargalo da inteligência artificial já é outro: energia e infraestrutura. Treinar e operar modelos de IA consome uma quantidade absurda de eletricidade. Os data centers hiperscale estão competindo por energia com cidades inteiras. E quem tem acesso a fornecedores de energia, espaço físico e engenharia de ponta para operar essa infraestrutura?
A IBM está investindo pesado em eficiência energética – são anos de pesquisa em resfriamento líquido, chips de baixo consumo, software de otimização como o Turbonomic e Maximo. A empresa tem uma vantagem concreta em gerenciamento de energia para data centers que poucas empresas no mundo têm.
Além disso, a IBM tem 75 mil consultores treinados em IA, mais de 20 mil engenheiros alocados no Lightwell, e acesso a alguns dos maiores laboratórios de pesquisa do planeta – o Thomas J. Watson Research Center tem um estacionamento com cobertura solar que gera 5,5 MW. Esses são ativos que não aparecem no balanço trimestral, mas que definem quem vai estar de pé daqui a dez anos.
A IBM tropeçou em um trimestre. Krishna admitiu. Mas transformar isso em um veredicto sobre uma empresa centenária diz mais sobre o mercado do que sobre a IBM.
Enquanto isso, a IBM segue com 93% da Fortune 500 como clientes, a maior frota de computadores quânticos do planeta, US$ 10 bilhões para gastar em quantum, o Red Hat crescendo dois dígitos e uma base instalada de mainframes que o mundo financeiro não substitui da noite para o dia. A IBM não está na vanguarda dos modelos generativos de IA hoje. Mas a corrida é mais longa e complexa do que o mercado de ações parece pensar.
Para Gabriel Subtil, não estamos sendo justos com a IBM. Daqui a alguns anos, hoje pode ser lembrado como o dia em que o mercado confundiu um trimestre difícil com o fim de uma empresa que está longe de acabar.
Fontes: Carta de Arvind Krishna aos investidores, CNBC – IBM stock craters, Axios – IBM stock tanks, Exame – Ação da IBM cai 25%, TIME – IBM 100 Most Influential Companies 2026, Brazil Journal – ‘Falhamos’, diz CEO da IBM




